A insatisfação dos profissionais é um problema que vai além das paredes da empresa. Ela transborda para o atendimento ao cliente, compromete a qualidade dos processos e, no médio prazo, afeta os resultados do negócio. Profissionais desmotivados não apenas deixam suas funções, mas também levam consigo a confiança, a empatia e a dedicação, essenciais para o sucesso das organizações.
Em uma tarde comum, eu e Jana, minha sócia, fomos a uma loja de uma grande rede. Enquanto explorávamos o espaço, percebemos duas funcionárias conversando discretamente. Uma delas comemorava a chance de ser contratada por uma empresa concorrente, enquanto a outra confessava também estar em busca de novas oportunidades.
Com um simples olhar, eu e Jana nos aproximamos da conversa, quase como se tivéssemos sido convidadas a participar. O assunto era sério e revelador: ambas estavam insatisfeitas. O motivo? Salários baixos, e principalmente, um ambiente de trabalho desmotivador e a ausência de alguém para defender seus interesses – o único profissional do RH que fazia isso havia sido desligado.
Mais tarde, no supermercado, vivi uma cena parecida. Enquanto passava as compras, perguntei à atendente se trabalharia no feriado. Com um tom de exaustão, ela respondeu que sim e começou a reclamar das escalas e da falta de reconhecimento. Suas palavras carregavam descontentamento e frustração.
Nossa interação com as funcionárias, tem um viés pessoal, claro, mas está muito mais ligado ao que fazemos nas empresas, ajudando pessoas, equipes e lideranças no desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais. Ou seja as pessoas como base para todas as construções
Essas histórias não são exceção, mas sim o reflexo de uma realidade recorrente. No comércio, onde o atendimento humano ainda é essencial, parece raro encontrar profissionais verdadeiramente engajados. Não se trata apenas de cumprir regras ou ser eficiente; a ausência de empatia, escuta ativa e um sorriso genuíno diz muito sobre a relação entre colaboradores e empresas.
Fica evidente que muitos desses profissionais não recebem treinamento adequado, não são escolhidos por suas competências comportamentais e, acima de tudo, não se sentem valorizados. Para eles, falar com clientes talvez seja uma forma de aliviar o peso do descontentamento ou, quem sabe, um grito silencioso por mudança.
Essas experiências me levaram a refletir: como podemos, enquanto líderes e gestores, escutar essas vozes antes que se percam em meio ao ruído da rotina?
Relatório da Gallup (2021): Aponta que a falta de engajamento e satisfação no ambiente de trabalho é uma das principais causas de alta rotatividade. Empresas com baixo nível de engajamento enfrentam até 43% mais turnover. Pesquisa da Work Institute (2020): Indica que 78% dos motivos para desligamentos são evitáveis, sendo os mais comuns a ausência de oportunidades de crescimento e a insatisfação com o ambiente profissional.
Esses dados demonstram que, quando os colaboradores sentem-se desmotivados ou desvalorizados, a probabilidade de deixarem a organização cresce significativamente.
O impacto do descontentamento no turnover varia conforme a geração:
- Geração Z (1997-2012): Valorizam flexibilidade e propósito. Segundo a Deloitte, 49% dessa geração consideram trocar de emprego nos próximos dois anos, principalmente por insatisfação com a cultura organizacional.
- Geração X e Baby Boomers: São mais estáveis, mas também sofrem com falta de oportunidades e reconhecimento. Questões como insatisfação com a liderança são causas comuns de turnover.
Um estudo da LinkedIn (2020) revela que a Geração Z tem 2,5 vezes mais chances de buscar novos empregos em comparação com outras gerações. A falta de desenvolvimento profissional e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho são pontos críticos para todas as idades.
Por outro lado, colaboradores satisfeitos geram melhores resultados, e investir em sua felicidade é uma estratégia vantajosa:
- A Universidade da Califórnia mostra que trabalhadores felizes são 31% mais produtivos, três vezes mais criativos e vendem 37% a mais.
- Pesquisas do Portal Melhor RH e do G1 reforçam que felicidade no trabalho está diretamente ligada à produtividade e ao desempenho empresarial.
Para aumentar a satisfação e engajamento, as empresas podem:
- Criar um ambiente agradável, com espaços confortáveis, boa iluminação e decoração que promovam pertencimento.
- Reconhecer conquistas profissionais, como grandes negociações ou metas alcançadas.
- Oferecer feedback constante, ajudando os profissionais a se sentirem valorizados e alinhados às expectativas da organização.
O humor no ambiente corporativo também tem seu papel:
- Reduz o estresse, estimula a criatividade e melhora as interações entre colegas.
- Sinaliza um ambiente saudável, contribuindo para o bem-estar geral.
- Colaboradores mais felizes e menos estressados estão diretamente associados a melhores resultados financeiros para a empresa.
Garantir que o senso de humor no ambiente de trabalho seja usado de forma saudável e respeitosa é essencial. Piadas ou comportamentos que comprometam a cultura organizacional podem gerar mais prejuízos do que benefícios, enfraquecendo a confiança entre a equipe.
A relação entre donos, gestores e funcionários mudou significativamente nos últimos anos. Reclamar da falta de profissionais no mercado ou de seus comportamentos não contribui para soluções ou bons resultados. Chegou o momento de aceitar essa nova dinâmica e utilizá-la para beneficiar todas as partes.
Fidelizar profissionais não significa apenas mantê-los na empresa, reduzindo a rotatividade, mas também garantir que trabalhem a favor do negócio em uma relação de ganha-ganha. Isso começa na contratação: é crucial saber quem você busca e compreender o que esse profissional valoriza. Muitas empresas ainda negligenciam essa etapa, focando nas contratações de altos cargos enquanto esquecem aqueles na linha de frente — que têm contato direto com os clientes e fazem toda a diferença para o negócio.
Essa abordagem não se trata de “ser bonzinho” ou promover exclusivamente o bem-estar dos colaboradores. É sobre entender que a relação entre empresa e funcionário precisa ser equilibrada. Ambos têm necessidades que precisam ser atendidas, pois dependem um do outro para alcançar sucesso. No final, felicidade e resultados caminham juntos quando essa dinâmica é bem administrada. A contrapartida do engajamento é o reconhecimento.

